Transformando tradições do leste asiático em trend: elementos e artigos de moda da cultura tradicional se tornaram tendência de escala global
Imagem: edição Equipe Funfact

Transformando tradições do leste asiático em trend: elementos e artigos de moda da cultura tradicional se tornaram tendência de escala global

Peças tradicionais viram tendências e reforçam o debate sobre identidade, influência e consumo cultural


Reinvenção do tradicional

A combinação entre moda e influência não é uma novidade quando falamos sobre o mundinho das celebridades. E as gigantes indústrias de entretenimento asiáticas, como a do K-pop, não seriam uma exceção a esse movimento tão comum. O que vem chamando atenção nos últimos anos, no entanto, é a presença marcante de elementos e artigos culturais compondo esse fenômeno.

(Reprodução/Instagram)

Esse tradicionalmente moderno tem sido uma forte tendência dentro do contexto dessas indústrias, em que vemos um movimento no qual vestimentas tradicionais e estampas regionais, por exemplo, passam a compor os figurinos e looks de uma quantidade significativa desses artistas. Ou seja, o tradicional passou a ganhar uma nova interpretação quando vestidos e usados por idols e atores.

O Tradicionalmente Mod(a)erno

No k-pop, por exemplo, é comum vermos referências à cultura tanto nos conceitos, quanto nos MVs (Music Videos). E, não demorou muito para que essas vestimentas tradicionais fossem, de certa forma, reinventadas, repensadas e reinterpretadas para compor os figurinos de diversos grupos. Assim, passamos a, por exemplo, ver o uso de versões contemporâneas do hanbok (vestimenta tradicional coreana) em apresentações, trazendo um corte moderno para a
peça, por exemplo. Essas peças acabam sendo usadas em diversos contextos, inclusive para apresentações no palco, composições de moda para revistas ou vestimenta em premiações. Em 2021, a rapper CL (2NE1/solista), esteve presente no MET Gala, com uma peça assinada pelo designer Alexander Wang, que misturava o tradicional, com a peça toda feita em jeans. Além disso, também trazia em sua proposta os detalhes e referências ao tradicional com uma capa longa inspirada no tradicional hanbok coreano, assim como a forma como a amarração foi feita na parte da frente.

(Reprodução/Instagram)

O hanbok é um dos exemplos que saltam à mente rapidamente quando pensamos na modernização de peças tradicionais. O BTS foi um dos grupos que ajudou a popularizar a versão contemporânea da peça, usando-a, por exemplo, no MV de “Idol” (2018):

Assim como o BLACKPINK, que vestiu modelos estilizados da peça no videoclipe de “How You Like That” (2020), trazendo uma proposta mais luxuosa para a peça.


A questão, portanto, não é sobre quem usou primeiro, nem sobre quem usou melhor. A questão é a recorrência do uso, e mais importante do que isso: o propósito.

Influência global e consumo cultural

Quando tratamos de exportação de produtos culturais, vários elementos estão inclusos dentro dessa perspectiva, então essa mistura de estética, identidade e influência cultural, não é algo inesperado. Esse movimento reforça o que chamamos de soft power” (quando um país consegue ampliar sua influência no sistema internacional sem necessidade de uma movimentação política direta).

O que compreendemos é que o uso dessas peças carrega muito mais do que estética, elas funcionam tanto como uma ferramenta de afirmação de identidade cultural, quanto uma ferramenta de exportação cultural. Assim, a popularização internacional dessas peças tende a ter um crescimento que acompanha a expansão do K-pop e dos BLs, sobretudo em meio aos fãs internacionais.

E, conforme esses elementos tradicionais passam a circular a partir de uma lógica de tendência fashion, cresce o debate sobre o que essas peças de fato carregam e o que acaba se perdendo nesse processo de exportação. A discussão não é nova, nem exclusiva, e já foi abordada por diversos especialistas e pesquisadores, seja fora ou dentro das redes sociais, onde hoje temos um maior acesso ao debate (vale a pena ver).

A grande questão é que a exportação de elementos culturais, pode gerar seu consumo sem contexto, fazendo com que se esvaziem dentro desse contexto. Assim, acabamos em uma espécie de limbo onde nos questionamos os limites e as implicações que a reinterpretação desses símbolos, até que ponto eles são uma valorização cultural, ou uma declaração de identidade – no sentido de pertencimento –, ou algo como uma “atualização cultural”.

Consumo, Identidade e Narrativa(?)

O que percebemos é que a medida que uma tendência se torna global, fãs dos mais diversos locais do mundo passam a usar peças inspiradas nos hanboks, e até mesmo utilizando tecidos e estampas tradicionais, assim como acessórios. Isso faz com que, não apenas marcas locais passem a ganhar mercado (saiba mais), mas também marcas de fast fashion.

Ou seja, ao mesmo tempo que temos marcas que valorizam e reforçam práticas artesanais, em um movimento de valorização cultural, outras transformam esses símbolos tradicionais em produtos puramente comerciais. Para além da análise e debate comercial (consumo), também abre-se espaço para um debate sobre a forma como esses artistas passam a projetar as culturas asiáticas globalmente. Porque, como comentado antes, podem sim ser formas de afirmação de identidade, ajudando a reposicionar símbolos culturais dentro dessa “cultura global”; mas também fazem parte desse processos de reorganização e exportação cultura, dando novas versões às tradições que passam a ser mais estéticas, comercializáveis e romantizadas.

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