As produções misturam elementos da história da Tailândia, romance e questões sociais contemporâneas.
Uma série de produções vem usando o BL para explorar diferentes recortes da história tailandesa.
Todas essas obras têm em comum a decisão de colocar relacionamentos entre homens em cenários onde, oficialmente, eles não deveriam existir. Quando o príncipe se apaixona por outro homem, quando o funcionário do Estado se envolve com um colega, quando o fantasma que retorna é o de um antigo amante, esses dramas estão fazendo mais do que entretenimento: estão questionando quem a história escolheu lembrar.
Reino do Sião, burocracia e amores impossíveis
Memoir of Rati: o amor na máquina do Estado
Ambientado em 1915, quando a Tailândia ainda era o Reino do Sião, Memoir of Rati mergulha em um momento em que o país se modernizava, negociava com potências europeias e tentava equilibrar tradição e burocracia. O protagonista, Rati (Inn Sarin Ronnakiat), volta ao país como intérprete ligado à embaixada francesa e se apaixona por Thee (Great Sapol Assawamunkong), um funcionário de alto escalão da máquina estatal. O cenário é de gabinetes, cartórios, protocolos: um ambiente em que tudo é regulado, menos o afeto que surge ali.

O romance entre dois homens aparece justamente onde o Estado é mais forte: dentro da sua própria estrutura. Em vez de um amor “marginal”, a série coloca esse relacionamento no coração da burocracia, mostrando como decisões, papéis e hierarquias atravessam corpos e desejos. E, ao fazer isso com um casal BL, Memoir of Rati tensiona o mito de uma história oficial heteronormativa: o Estado do Sião que se aprende nos livros não tem Rati e Thee, mas a ficção se encarrega de inseri-los nesse arquivo afetivo.
Príncipes, herdeiros e as máscaras da monarquia
Love in the Moonlight: dever, casamento e desejo
Em Love in the Moonlight, a Tailândia reaparece sob a forma de um reino fictício, Sariangkham, em 1963. O protagonista é um príncipe enviado a Bangkok (Peak Peemapol Panichtamrong) para cumprir um roteiro conhecido: casar com uma mulher e selar alianças políticas. O problema é que, no meio de toda a performance da monarquia, ele se apaixona por Sasin (Pearl Satjakorn Chalard), primo da noiva.

Aqui, o BL funciona como lente de aumento de uma tensão que já existe na história real do país: o peso da monarquia como instituição e as expectativas sobre masculinidade, família e continuidade da linhagem. Ao escolher um casal masculino como protagonista, a série transforma o protocolo em prisão e o romance numa espécie de “falha” do sistema. O resultado é uma fantasia histórica que pergunta, de maneira bem direta: o que acontece quando o corpo do príncipe não obedece ao script que o Estado escreveu para ele?
Famílias, negócios e a Tailândia sino-descendente
To Sir, With Love: BL dentro do lakorn de época
Enquanto muitos BLs históricos nascem já embalados como “Y-series”, To Sir, With Love (2022) vem do universo dos lakorn, os melodramas clássicos tailandeses. Ambientada entre os anos 1930 e 1940, a trama gira em torno de uma família sino-tailandesa, com conflitos de herança, honra e negócios, com os protagonistas Thanapat Kawila (Film) como Tian e Rachata Hampanont (Jam) como Jiu.
O elemento BL aparece como parte desse tecido: o relacionamento masculino não está isolado, mas sim inserido na dinâmica da casa, na disputa por poder, nos códigos de respeito e vergonha. Isso é importante porque desloca o BL de uma bolha temática contemporânea e o coloca dentro da grande narrativa da diáspora chinesa na Tailândia: uma história de migração, comércio e ascensão social que costuma ser contada sempre a partir de casais heterossexuais.
Casas antigas, danças tradicionais e fantasmas apaixonados
Interminable: o passado que recusa desaparecer
Interminable (2025) amplia o mapa histórico do BL ao misturar romance, sobrenatural e um recorte preciso da cultura tailandesa do início e meados do século XX. O relacionamento central é entre Khun Yai (Billy), um lorde, e Kaewta (Babe), um dançarino tradicional. Uma tragédia no passado impede que esse amor se complete, e décadas depois os dois voltam a se cruzar quando Kaewta, em uma nova vida, se conecta com uma casa antiga habitada pelo espírito do antigo dono.
O drama faz da casa tradicional tailandesa um personagem: a arquitetura, a disposição dos cômodos, os objetos e a própria dança clássica se tornam marcas de uma Tailândia que modernizou, mas não apagou suas heranças. E, de novo, a escolha de que o amor em questão é entre dois homens intensifica o gesto político: é justamente esse romance “impossível” que se recusa a morrer, que volta como assombração, que insiste em ser lembrado.
Khemjira: carma, reencarnação e amor em 1767
Khemjira (2025) parte do presente, mas sua trama é inseparável de uma história que começa em 1767, em um contexto feudal, e atravessa a Segunda Guerra Mundial, protagonizado por Paran(Keng Harit) e Khemjira (Namping Napatsakorn Pingmuang). O drama combina horror, misticismo e BL para contar uma maldição que persegue os protagonistas ao longo de várias vidas.

Ao usar reencarnação, templos, rituais e crenças populares como estrutura narrativa, Khemjira reencena uma Tailândia profundamente marcada por budismo, culto aos espíritos e noções de carma. O amor entre homens, aqui, não é só “aceito” ou “proibido”: ele é o próprio motor da maldição. A mensagem é ambígua e complexa, mas inegavelmente poderosa: o romance queer está literalmente inscrito na lógica espiritual que organiza o mundo da série.
A arquitetura da memória: mansões, rios e protestos
I Feel You Linger in the Air: o tempo entrelaçado
Em I Feel You Linger in the Air (2023), a Tailândia de 1927–1928 é reconstruída a partir de duas marcas muito concretas: a casa aristocrática em Chiang Mai e o rio. O protagonista (Bright Rapheephong Thapsuwan), um arquiteto gay contemporâneo, sofre um acidente e acorda no passado, onde passa a trabalhar para uma família tradicional e se aproxima de Jom (Non Chanon Santinatornkul), o herdeiro.

A trama é interessante justamente porque a profissão do protagonista vira metáfora: ele é alguém que, no presente, projeta e restaura casas antigas, e no passado precisa “habitar” um espaço que não foi feito para ele enquanto homem gay. A casa, a cidade e o rio condensam uma Tailândia em transição, em que elite local, colonialismo e modernização se cruzam. Ao colocar um relacionamento BL no centro disso, a narrativa insinua que a história arquitetônica e urbana do país também poderia ter sido marcada por afetos como aquele, mesmo que eles nunca tenham sido registrados oficialmente.
Em todos esses exemplos, o elemento histórico já seria interessante por si só. Mas o fato de serem narrativas BL muda o jogo. Quando um roteirista escolhe colocar dois homens apaixonados dentro de contextos como o Reino do Sião, uma monarquia em crise ou a ditadura de 1971, ele está dizendo algo muito específico: pessoas queer sempre existiram, mesmo que a história oficial tenha apagado seus nomes.
O BL tailandês, como mostram pesquisas sobre o gênero, nasceu ligado a tropos específicos, o romance universitário, o “fanservice”, a masculinidade suave. A guinada histórica expande esse repertório. Agora, além de entregar química de casal e cenas que agradam ao fandom, essas séries também disputam o imaginário sobre o passado do país. Elas inventam arquivos alternativos, em que o príncipe, o burocrata, o herdeiro e o lorde podem amar outros homens e, ao fazer isso, convidam o público a imaginar outras versões possíveis da Tailândia.
Não se trata de substituir a historiografia acadêmica, mas de abrir espaço para um tipo de memória emocional. O que o BL faz, nessas produções, é algo muito próximo de um gesto político: coloca corpos e afetos queer no centro de eventos, períodos e instituições que, por décadas, foram contados como se a heterossexualidade fosse a única forma legítima de desejo. Entre uma mansão em Chiang Mai, um gabinete no antigo Sião e uma rua tomada por protestos em 1971, a mensagem é clara: a história da Tailândia também pode (e deve) ser contada a partir de um casal BL.
Você gosta de dramas históricos? Já assistiu a algum deles? Comenta lá no nosso Instagram! Vamos aumentar a lista interminável de dramas!
Leia também: O brilho intenso de Shine: quando um drama BL apresenta camadas da memória da Tailândia
