As recentes colocações do mangaká Hajime Isayama vistas sob nova perspectiva. Confira a seguir.
Oi, gente querida! Essa semana que passou foi badalada, não é mesmo? Shows, lançamentos, até mesmo a Shakira cantando no Rio, enfim, um número impressionante de pautas. Obviamente, nossa FunFact está antenada às recentes colocações dos últimos dias. Porém, meu destaque aqui na coluna vai para Hajime Isayama, o nome por trás da franquia Shingeki no Kyojin (Attack on Titan, como é mais conhecida a obra no Brasil), que voltou a aparecer nas conversas de fãs de cultura pop japonesa.

Quem acompanha a obra de Isayama observou que as discussões em torno de sua obra se reacenderam. Não é sem motivo, afinal ele vem dando entrevistas em que admite algo consideravelmente polêmico: empatia – e até simpatia mesmo – para com seu protagonista Eren Yeager.
O tema é polêmico por diversos motivos. Muitos fãs ficaram doídos com o final da obra, quase como se quisessem trucidar Isayama pelas saídas que tomou. De fato, o final pode ser considerado pobre sob muitos aspectos e pontos de vista. Contudo, se me permitem um ponto de vista relativamente alternativo, acho melhor a gente fugir do debate sobre a narrativa e focar no que realmente importa das posições densas do autor. Penso que o que a maioria das pessoas entendeu (ou quis entender) é diferente – bem diferente, diga-se de passagem – do que o próprio autor falou.
Isayama ter admitido o que sente sobre seus personagens não me parece uma falha de caráter, mas sim uma espécie de confissão de dúvida dele próprio sobre o significado das ações de cada um dos elementos de sua trama. O problema está aí: Isayama recriou o mundo atual, dividindo cada um dos seus problemas contemporâneos nos arcos que compõem a história. Haja densidade em Shingeki! E mais, voltando ao caráter problemático de suas falas, vale a pena refletir que, no grego, de onde vem a palavra empatia, o significado mais exato era “sentir dentro (do outro)” ou “partilhar o sentimento do outro”.
Estou provocando você de propósito agora: os autores não precisam, exatamente, dessa dose de empatia pelos seus personagens? E a resposta óbvia é: sim. Logo, a dúvida (que nenhum escritor quer admitir) é tão presente. Com isso resolvido, afasto o clickbait e desloco a questão da empatia de Isayama para uma questão mais polêmica e útil: o que o sucesso da franquia revela sobre nós mesmos? Não fomos nós mesmos empáticos quanto ao Eren? Vejamos.
Repassando rapidamente o contexto, Isayama escreveu uma história muito impactante, uma franquia de mais de 140 milhões cópias impressas (sem contar as mídias paralelas ao mangá, bem como o volume de pirataria que mobilizou autoridades japonesas), que seu feito significou uma espécie de ineditismo no imaginário dos fãs de mangá dos anos 2009 em diante. Até youtubers se formaram e se consolidaram no objetivo de comentar semanalmente a obra, como é o caso da Gabi Xavier, que se destaca como case de Attack on Titan. (A partir daqui cuidado com os spoilers a partir daqui)

Attack on Titan/ Shingeki no Kyojin foi lançado oficialmente em 2009 e teve sua circulação até o ano de 2021. Ao longo desse período, precisamente 12 anos, vimos a trajetória de Eren Yeager, uma criança habitante de uma ilha chamada Paradis. Eren e seus amigos, Armin e Mikasa, vivem uma vida tranquila, até o dia em que um ser colossal, conhecido como Titã de mais de 20 metros de altura, invade a sua cidade, matam pessoas caras aos protagonistas e causam caos e destruição por todos os lados. Vale a pena destacar que “sua casa” é uma cidade murada, como uma espécie de arquitetura feudal tardia. Ou seja, todos viviam “ilhados” dentro da ilha, sem poder “sair”.
Ao longo do desenvolvimento, descobre-se que essa espécie de confinamento, na verdade, reflete um passado nebuloso e cruel de um povo subjugado por outro. No período em questão, muitos anos antes dos fatos narrados na história principal, uma criança escravizada é severamente punida pelos algozes de seu povo. O grafismo sombrio de Isayama se revela aí, pois vemos todas as práticas tradicionais de violência e opressão em contexto como esses de exploração e colonização. A tal criança, uma menina chamada Ymir, descobre poderes sobrenaturais, ao ter contato com um ser não conhecido e nem identificável e torna-se a primeira pessoa a obter poderes tipo titânicos.
De escrava de um rei abusador e violento, a tal criança torna-se consorte do rei abusador, vindo se tornar a rainha Ymir. Com seus poderes, vítima dessa violência psicológica, ela se torna submissa ao rei e lhe concede inúmeras vitórias e o seu reino vivencia um apogeu de violência e horror. Até aí, Isayama não nos desafiaria tanto, exceto pelo fato de que a rainha falece e é devorada pelas suas próprias filhas, num ritual antropofágico estimulado pelo próprio viúvo para que os poderes incríveis da ancestral Ymir não fossem perdidos. Tudo isso envolto, repito, por um grafismo desafiador. Alguns de nós pararíamos aí, não é mesmo? Mas a história prossegue.

Com o passar do tempo, esse povo enfrentará resistência. O povo de Eldia, como eram conhecidos o rei Fritz e seus descendentes, será combatido por alianças de povos no continente, e mesmo tendo os poderes, será impelido aos extremos do continente, vindo a se deslocar para a ilha de Paradis. Lá, fundarão o que na história principal fica apresentado como as três muralhas: Maria, Sina e Rose, que são regidas por uma vasta burocracia corrupta e consciente dos fatos, mas que opta pela manutenção desse status quo de confinamento e exploração do povo.
Com esse plot político denso e complexo, Isayama nos desafia a todo tempo. A história segue-se em torno do desenvolvimento das diversas complexidades envolvidas nesse desejo por saber o passado, por conhecer a “verdade” e a grande guinada da história está nesse momento em que o Eren recebe poderes titânicos e intenta a libertação de Paradis, o que é traduzido no movimento do protagonista de invadir o continente com seus poderes adquiridos.
Reduzir tal história é um exercício que superar nossos limites nesse breve comentário, por isso, acho prudente voltar ao que de fato nos interessa: perceber que Eren e toda a trama de Shingeki no Kyojin representam o Japão e a sua história insular recente (pelo menos desde o séc. 19 até agora).
Observo que Isayama se esquiva de responder sobre essa questão publicamente e nunca atrelou sua criação a uma visão sobre o passado japonês recentes, pois não é comum a um japonês, do ponto de vista linguístico, ser explícito desnecessariamente. Porém, tomo a liberdade de pensar que a dúvida surgida (a sua empatia e o desejo de um final melhor) é sobre o quão correto seria um final alternativo.
A queixa dele próprio é sobre a incapacidade de desenvolver um final adequado à história, mas eu perguntaria: existe um final possível que não seja polêmico? A saída seria um “aberto”? Acredito que não, pois a complexidade da história não está só no seu interior, mas na sua consonância com o seu exterior. E essa consonância nos coloca, como fãs, numa vertigem difícil de resolver.
Se por um lado, vamos com Eren até o momento em que ele nos choca, por outro, vemos o retrato do mundo e passamos ao pessimismo. Assistir ou ler Attack on Titan é sobre rir consigo mesmo em alguns momentos e chorar de vergonha por ter rido como riu em outros.
Exemplos não faltam: o preconceito racial, que vai se revelando; a violência de gênero que, mansamente, nos escandaliza, depois de termos batido palmas; até o caráter xenófobo de alguns personagens – tudo isso junto, nos leva ao chão. Chega a ser difícil precisar o grau de complexidade dos arcos, pois perdemos tempo reavaliando posições, presos, cativos e postos contra à parede. Numa dada cena, o leitor desatento até concorda com um torturador… A obra é insana e, a despeito das polêmicas em torno de Isayama, penso que o problema esteja, na verdade, no quão visceral e verossímil ele foi, mesmo sem admitir.
Note-se: o conservadorismo tem tomado outra forma no mundo atual, mais forte, mas resiliente e mais articulado. O próprio povo japonês está sob o governo de uma primeira-ministra assumidamente conservadora, que tem se posto para discutir a soberania do Japão diante do mundo e as novas iniciativas em termos geopolíticos. Não temos motivos para nos preocuparmos por hora, porém, sempre é um alerta.
Isayama assumir empatia com a trajetória de Eren é sinal de um desafio muito mais para nós fãs: quais os elementos dessa história com os quais nós nos incomodamos? A audiência dada ao longo da década de publicação não revela também alguma coisa sobre nós mesmos? Será que nós não concordamos com o Eren em alguma medida? Não teremos sido nós mesmos empáticos a Eren Yeager? Fica a provocação.
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