Do nicho à vitrine: como a literatura coreana conquistou o Brasil

Do nicho à vitrine: como a literatura coreana conquistou o Brasil

De contos traduzidos nos anos 1980 a autoras que hoje lotam mesas na Bienal do Livro, entenda por que o Brasil se tornou um dos mercados mais importantes do mundo para a literatura sul-coreana.

Antes de virar estante nas livrarias, a literatura coreana no Brasil foi trabalho solitário de poucas pessoas. Enquanto o K-pop e os K-dramas ainda buscavam espaço por aqui, tradutoras como Yun Jung Im já apostavam, décadas atrás, em autores que praticamente ninguém conhecia. Hoje, esse trabalho de bastidor virou fenômeno de vitrine: a Coreia do Sul é a segunda cultura estrangeira mais popular entre os brasileiros, atrás somente dos Estados Unidos, segundo relatório de 2025 da KOFICE (Korean Foundation for International Cultural Exchange). E, cada vez mais, essa popularidade também se traduz em livros.

Na Bienal Internacional do Livro de São Paulo 2026, esse movimento ganha um capítulo simbólico: a chegada da autora Lee Hong, em sua primeira visita ao país, para a mesa “Além dos k-dramas e do k-pop: a literatura na onda coreana”, na Arena Cultural, sexta-feira (11/09), das 13h45 às 14h45, com a palestrante Érica Imenes e mediação de Daniela Mazur. Mas para entender por que esse encontro importa, é preciso voltar décadas atrás.

Os primeiros passos em 1980

A primeira obra de literatura coreana publicada no Brasil foi “Contos Coreanos”, coletânea lançada em 1985 pela Editora Rio Arte, reunindo autores como Kim Tong-in e Hwang Soon-won. A tradução era assinada por Luís Palmery, mas foi a partir da década seguinte que uma figura se tornaria essencial para o campo: a tradutora Yun Jung Im, professora e coordenadora do curso de língua e literatura coreana da USP, que desde os anos 1990 concentrou boa parte dos esforços de tradução direta do coreano para o português no país.

Foto da tradutora Yun Jung Im
Imagem: Revista Fapesp

Segundo levantamento acadêmico da Revista Palimpsesto (UERJ), houve décadas inteiras de silêncio editorial: entre 1999 e 2009, e novamente entre 2009 e 2017, praticamente nenhum novo título coreano chegou às livrarias brasileiras. Sem o trabalho contínuo de Yun Jung Im, à frente de antologias de poesia e contos, não havia quem sustentasse essa ponte.

O ponto de virada: Han Kang e “A Vegetariana”

O primeiro grande salto de visibilidade veio em 2016, quando Han Kang conquistou o International Booker Prize com “A Vegetariana”,  livro que já havia sido publicado no Brasil em 2013, pela Devir, sem grande repercussão. A repercussão internacional do prêmio motivou uma retradução, lançada em 2018 pela Todavia, e essa nova edição se tornou, para muitos leitores brasileiros, a porta de entrada para a literatura coreana.

Imagem: Editora Todavia

O impacto do prêmio abriu caminho para outras autoras, como Min Jin Lee, com “Pachinko” (Intrínseca, 2020), e Cho Nam-joo, com “Kim Jiyoung, nascida em 1982” (Intrínseca, 2022). O reconhecimento voltaria a se repetir, em escala ainda maior, quando Han Kang recebeu o Nobel de Literatura em 2024, consagração que confirmou a força da Hallyu também no campo literário.

Uma década de crescimento: os números por trás da onda

O crescimento da literatura coreana no Brasil não foi linear, mas seguiu de perto os grandes marcos da cultura pop sul-coreana. Segundo levantamento do professor Luis Girão (USP), publicado a partir de dados do Centro Cultural Coreano no Brasil (CCCB):

  • Entre 2019 e 2020, as publicações de títulos coreanos cresceram 300% em relação à década anterior, com média de 12 lançamentos por ano, impulsionadas pelo sucesso do filme “Parasita”, vencedor do Oscar de Melhor Filme em 2020.
  • Em 2021, o número saltou para mais de 30 lançamentos, incluindo webtoons e romances aclamados.
  • 2022 foi o ano recorde, com 34 títulos publicados, puxado pelo fenômeno global de Round 6 (Squid Game).
  • Em 2023 e 2024, consolidou-se o gênero da “ficção de cura”, livros como “A Inconveniente Loja de Conveniência”, de Kim Ho-yeon, que dialogam com saúde mental e bem-estar emocional no pós-pandemia.
Imagem: Caroline Melo/RioMar Recife

O levantamento mais recente, feito pelo podcast brasileiro Sarangbang, financiado desde 2024 pelo próprio LTI Korea (Literature Translation Institute of Korea), mostra que esse crescimento segue firme e cada vez mais diversificado, incluindo literatura fantástica, ficção científica e graphic novels.

O papel decisivo do governo sul-coreano

Boa parte dessa expansão não teria acontecido sem financiamento direto do Estado coreano. O LTI Korea, instituto vinculado ao Ministério da Cultura, Esportes e Turismo da Coreia do Sul, subsidia total ou parcialmente mais de 80% dos livros coreanos publicados no Brasil, segundo a pesquisadora Ji Yun, ouvida pela Biblioteca Pública do Paraná. O apoio cobre desde a tradução até parte dos custos de publicação e também mantém, no Brasil, parcerias com universidades como USP e UnB para formar novos tradutores.

Se um leitor abrir a ficha catalográfica de “A Vegetariana”, vai encontrar a frase: “Este livro foi publicado com o apoio do Instituto de Tradução de Literatura da Coreia (LTI Korea)”. É um selo cada vez mais comum nas estantes brasileiras  e reflexo direto de uma política de Estado que hoje é peça central da estratégia de soft power sul-coreana.

Apesar disso, a falta de tradutores qualificados de coreano para português segue sendo um gargalo para acompanhar a demanda crescente das editoras, o que reforça a importância de nomes como Yun Jung Im e de uma nova geração de tradutores formados nos últimos anos.

Por que o Brasil virou destino estratégico?

O Brasil não é um mercado qualquer para a Coreia do Sul. Foi o primeiro país da América Latina e o oitavo do mundo a estabelecer relações diplomáticas com o país asiático, e os dois lados vêm celebrando décadas de relação bilateral. Esse histórico, somado ao tamanho do mercado editorial brasileiro e ao consumo já consolidado de K-dramas e K-pop, tornou o país um alvo natural para a estratégia de exportação cultural coreana.

Os números comprovam: segundo o Relatório Anual sobre o Estado da Onda Coreana no Exterior, divulgado pela KOFICE em março de 2025 (com dados referentes a 2024), 75% dos brasileiros entrevistados afirmam gostar ou gostar muito de conteúdos culturais coreanos. Um levantamento complementar, feito pela Ecglobal e divulgado em fevereiro de 2025, mostrou que quase 90% dos brasileiros entrevistados assistem regularmente a K-dramas, e 47% afirmaram pretender participar, ainda em 2025, de eventos culturais ligados à Coreia, como festivais, shows de K-pop e encontros com fãs.

Para Cheul Hong Kim, ex diretor do CCCB, esse interesse deixou de ser fenômeno de nicho: “Acredito que a cultura coreana já superou a fase de ser considerada como algo apenas de nicho. Ainda que o público jovem feminino seja maioria quando falamos de adoradores da cultura coreana, hoje ela já é desfrutada por pessoas de todas as idades e gêneros”, afirmou em entrevista ao blog da Companhia das Letras. Segundo ele, o consumo também se diversificou: “Não temos apenas K-pop e K-dramas, mas também literatura, cinema, moda, beleza, gastronomia, webtoons, e até o interesse pelo aprendizado da língua coreana aumentou significativamente nos últimos anos”.

Os clubes do livro que sustentam esse público

Se o mercado editorial cresceu, parte da explicação está em um movimento paralelo, menos visível, mas igualmente decisivo: a multiplicação de clubes de leitura dedicados exclusivamente à literatura coreana pelo Brasil.

O mais estruturado deles é o Clube do Livro do Centro Cultural Coreano no Brasil (CCCB), que promove encontros mensais gratuitos em sua sede, na Avenida Paulista, em São Paulo. Com 40 vagas por mês, divididas em dois grupos de 20 participantes, o clube já discutiu títulos como “Se Esse Rosto Fosse Meu”, de Frances Cha, e “João Pé-de-Feijão”, de Ing Lee, sempre com mediação especializada e sem exigir conhecimento prévio sobre a cultura coreana. Diante da alta demanda, o CCCB chegou a abrir uma segunda turma presencial, às quartas-feiras, só para dar conta das inscrições.

Imagem: Centro Cultural Coreano no Brasil

Ao redor dessa iniciativa institucional, cresceu também uma cena mais orgânica, puxada por leitoras e criadoras de conteúdo. É o caso do SarangBang Podcast, criado em 2023 por Bruna Giglio e Denise Nobre, que se conheceram durante um intercâmbio na Hallym University, na Coreia do Sul, em parceria com a USP. Formadas em Letras Coreano-Português, as duas passaram a produzir episódios sobre literatura coreana que hoje são ouvidos em mais de 23 países,  a maioria dos ouvintes, no entanto, segue sendo brasileira. Denise Nobre também atua como mediadora do clube do CCCB e planeja expandir a iniciativa em parceria com o sistema BibliON de bibliotecas públicas.

Esses espaços cumprem um papel que vai além do lazer: são também onde se forma a próxima geração de tradutores, mediadores e divulgadores da literatura coreana no país. É esse pano de fundo, décadas de trabalho de tradutoras pioneiras, investimento estatal coreano, consolidação de um público brasileiro cada vez mais engajado e o protagonismo crescente das mulheres na cena literária do país

A literatura coreana nas Bienais: uma trajetória em ascensão

A partir da trajetória apresentada podemos perceber a importância da participação de autores coreanos em eventos voltados para brasileiros. É nesse sentido que nas últimas edições, autores e temáticas coreanas passaram a figurar cada vez com mais frequência nas principais Bienais do Livro do país, em São Paulo e no Rio de Janeiro.

  • Bienal do Livro Rio de Janeiro

O Rio foi, na verdade, pioneiro nesse movimento. Em 2019, durante as celebrações dos 60 anos de relações diplomáticas entre Brasil e Coreia do Sul, a Bienal do Livro Rio recebeu, pela primeira vez, um grupo de escritores coreanos: Kim Ki-taek, autor do livro de poesias “Chiclete”; Kang Byoung Yoong, autor do romance “Pepino de Alumínio”; e o ficcionista Park Min-gyu, então inédito no país  trazidos pelo próprio LTI Korea. O encontro, mediado pela jornalista Raffa Fustagno, reuniu também a autora brasileira Marina Carvalho, de “Um Dorama Para Chamar de Meu”, romance nacional com protagonista coreano.

Seis anos depois, em 2025, o Rio voltou a ser palco de um marco: a chegada de Kim Ho-yeon, autor do fenômeno “A Inconveniente Loja de Conveniência”, obra que já havia vendido mais de 1,7 milhão de exemplares na Coreia do Sul e figurou entre os livros mais emprestados nas bibliotecas públicas do país. Em sua primeira visita ao Brasil, Kim lançou oficialmente “Meu Dom Quixote Coreano” (Bertrand Brasil) e chegou a comentar, em entrevista à Folha, como ficou surpreso com a repercussão de sua obra por aqui, chegando a fazer, no próprio livro, uma referência a “Meu Pé de Laranja Lima, de José Mauro de Vasconcelos”.

  • Bienal do Livro São Paulo

Já a Bienal paulista consolidou sua aposta na literatura coreana de forma mais recente e crescente:

Em 2022, com o evento de volta ao calendário após a pandemia, a Bienal já reunia estandes dedicados à literatura sul-coreana, misturando obras traduzidas, biografias de grupos de K-pop e fanfics nacionais inspiradas na cultura coreana.

Em 2024, a Bienal trouxe ao Brasil Hwang Bo-Reum, autora de “Bem-vindos à Livraria Hyunam-dong” (Intrínseca), que também participou de um bate-papo com fãs na Arena Cultural. No mesmo ano, a editora Rocco montou um estande temático dedicado a “Amêndoas”, de Won-pyung Sohn, e a NewPOP apostou nos manhwas, incluindo “Navillera”.

Imagem: Café com Kimchi

Em 2026, a Bienal amplia essa aposta ao trazer Lee Hong para sua primeira passagem pelo Brasil,  um sinal de que a presença de autores coreanos deixou de ser pontual para se tornar parte da programação regular do evento.

Juntas, as duas Bienais mostram que a literatura coreana deixou de ser fenômeno isolado de uma única feira: ela hoje atravessa o calendário literário nacional e, cada vez mais, também inspira a produção de autores brasileiros.

Além dos k-dramas: a literatura coreana ganha seu momento na Bienal do Livro SP

Com a chegada da autora Lee Hong ao Brasil, a Bienal 2026 discute como a Hallyu abriu espaço para os livros coreanos conquistarem os leitores brasileiros. A mesa Além dos K-dramas e do K-pop: a literatura na onda coreana acontece na Arena Cultural, sexta-feira (11), das 13h45 às 14h45, e reúne, além da autora, a pesquisadora Érica Imenes e a mediação de Daniela Mazur.

A expectativa é que o encontro trace um panorama de como a literatura conseguiu ocupar um espaço próprio dentro da Hallyu, para além do consumo de música e séries, e como histórias vindas da Coreia do Sul têm conquistado leitores de diferentes culturas. Com a chegada de Lee Hong ao Brasil e o lançamento de seu primeiro título por aqui, a conversa também deve abordar os desafios de traduzir e publicar autoras coreanas em mercados fora da Ásia.

Sobre a autora

Imagem: Bienal do livro de São Paulo

Lee Hong é uma das vozes contemporâneas mais premiadas da Coreia do Sul, autora de cinco livros que exploram os desejos e os conflitos da sociedade coreana, com atenção especial às experiências das mulheres. Ela venceu o 31º Prêmio Today’s Writer, em 2007, recebeu o 1º Young Art Frontier de literatura do Conselho de Arte Coreano e teve o romance “A Christmas Picnic” indicado ao Korea Times Award de literatura, em 2010. Já esteve à frente de projetos de intercâmbio internacional, como uma coletânea de contos coreano-holandesa, e ministrou palestras sobre literatura coreana em universidades da França e da Espanha.

Sua passagem pela Bienal marca a estreia da escritora no Brasil e deve coincidir com o lançamento nacional de “A Dama de Gangnam”, romance já publicado em outros países, como a França, sob o título “La Femme de Gangnam”.

Capa do livro "A dama de Gangnam"
Imagem: Editora VR

Sobre a palestrante

Imagem: Bienal do livro de São Paulo

Érica Imenes é uma das nomes mais conhecidas quando o assunto é cultura pop coreana no Brasil. Coautora do livro “K-Pop: Manual de Sobrevivência”, ela começou sua trajetória como tradutora em um extinto portal dedicado ao gênero e, desde então, se dedica a pesquisar e traduzir a cultura sul-coreana para o público brasileiro, do K-pop à sociedade e à política do país.

Sobre a mediadora

Imagem: Bienal do livro de São Paulo

Daniela Mazur é doutora e mestre em Comunicação pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e pesquisadora vinculada ao MidiÁsia, grupo de pesquisa em mídia e cultura asiática contemporânea da instituição. Em seu doutorado, investigou a ascensão da Coreia do Sul como polo cultural fora do eixo tradicional ocidental. É autora de estudos sobre a Hallyu, o soft power sul-coreano e a presença dos k-dramas no imaginário brasileiro, além de fonte recorrente da imprensa sobre o tema.