Suzy Lee no CCCB: os bastidores da coletiva de imprensa do lançamento de “Verão” em São Paulo

Suzy Lee no CCCB: os bastidores da coletiva de imprensa do lançamento de “Verão” em São Paulo

Dezesseis anos depois de sua primeira visita ao Brasil, a autora e ilustradora sul-coreana Suzy Lee voltou ao país para o lançamento de Verão, e a FunFact esteve na coletiva realizada no Centro Cultural Coreano no Brasil (CCCB), em São Paulo, um dia antes da participação dela na Bienal do Livro. O encontro reuniu jornalistas e influenciadores da área de livros ilustrados e literatura infantil, e a autora esteve acompanhada do tradutor Jack Park e de Gabriela Tonelli, editora da Companhia das Letrinhas responsável por seus livros no Brasil. Ao longo da conversa, Suzy falou sobre a repercussão do seu trabalho por aqui, o processo criativo por trás de seus livros e até compartilhou histórias pouco conhecidas de sua trajetória. Confira os principais momentos.

Quem é Suzy Lee

Suzy Lee é uma das primeiras autoras sul-coreanas a ganhar destaque na literatura infantil brasileira, reconhecida mundialmente por seu trabalho com narrativa visual. Ela ficou conhecida no Brasil pela Trilogia da Margem — formada por Onda (2008), Espelho (2009) e Sombra (2010) —, obras que usam a dobra central do livro como elemento narrativo, dividindo cada história em dois universos ao mesmo tempo distintos e complementares. Os três títulos, lançados originalmente pela Cosac Naify e depois reeditados pela Companhia das Letrinhas, se tornaram clássicos nas estantes infantis brasileiras, e Onda recebeu o Prêmio Luís Jardim de Melhor Livro de Imagem na FNLIJ 2010.

Imagem: Centro Cultural Coreano no Brasil

Depois da trilogia, a autora publicou no Brasil, sempre pela Companhia das Letrinhas, os títulos Rio, o Cão Preto, Linhas, Verão e Pássaro Preto. Em 2022, Suzy Lee recebeu o Prêmio Hans Christian Andersen na categoria ilustração, considerado o “Nobel” da literatura infantil, e é autora também de um livro teórico sobre sua própria obra, A Trilogia da Margem: o Livro-Imagem Segundo Suzy Lee (Cosac Naify, 2012), hoje fora de catálogo.

“Suzy, venha logo, te amamos”

Suzy Lee esteve no Brasil pela primeira vez em 2010, quando foi convidada para uma feira do livro,  o mesmo ano do último livro da Trilogia da Margem, um marco em sua carreira. Ela contou que, na época, achou incrível ter o trabalho reconhecido em um país tão distante da Coreia. Sobre o reencontro, disse que o tempo apagou boa parte das lembranças da viagem anterior, mas que estar novamente em solo brasileiro fez tudo voltar à memória. Ela revelou ainda que foi justamente nessa primeira viagem, no contato com leitores e escolas brasileiras, que nasceu a ideia do livro teórico A Trilogia da Margem: o Livro-Imagem Segundo Suzy Lee.

Imagem: Livraria da Travessa

A artista relatou ter percebido um crescimento recente do interesse do público brasileiro pelo seu trabalho através das redes sociais, mesmo com as postagens majoritariamente em coreano. Depois de uma exposição na Coreia, ela conferiu as visualizações de uma publicação no Instagram: 340 mil views e cerca de 300 comentários, quase todos de brasileiros. “A maior parte desses comentários estava escrito: Suzy, venha logo, te amamos”, contou, emocionada com a recepção.

Uma jornalista e pesquisadora presente na coletiva, acompanhada de colegas de uma pós-graduação em criação de livro ilustrado, perguntou se Suzy tem noção da importância da Trilogia da Margem para o letramento visual no Brasil, hipotetizando que a obra mudou a forma como se aprende a ler imagens por aqui. Suzy contou que, após a programação do dia anterior, muitos educadores e artistas lhe disseram o quanto sua obra os influenciou, o que a deixou emocionada e sem jeito. Para ela, dialogar com quem estuda e pensa o livro ilustrado é uma das partes mais gratificantes da carreira.

Os quatro capítulos de “Pensamentos Tangíveis”

Suzy também apresentou seu livro mais recente na Coreia, Pensamentos Tangíveis, ainda inédito no Brasil, uma obra teórica, e também uma espécie de diário de sua vida com a arte, que reúne reflexões, curiosidades e ideias acumuladas ao longo de toda a sua trajetória criativa, um projeto que, segundo ela, ninguém encomendou, mas que nasceu da própria necessidade de organizar seu percurso artístico.

O livro é dividido em quatro capítulos, e Suzy detalhou a história por trás de cada um:

  • O primeiro capítulo remonta aos seus vinte e poucos anos, quando queria expressar uma sensação melancólica de viver entre um mundo ideal e uma realidade complexa, um momento também politicamente conturbado na Coreia. É esse período que marca o início de seu interesse pela materialidade do livro ilustrado e a produção de seu primeiro livro, a partir de Alice no País das Maravilhas, fruto do mestrado em Book Arts na Camberwell College of Arts, em Londres.
  • O segundo capítulo, “Quero Correr Sempre, Todo Dia”, fala sobre a maternidade: o momento em que se tornou mãe de duas crianças e vivia em conflito entre a vontade de se dedicar à arte e a correria do dia a dia. Foi também nessa fase que Suzy mantinha um blog onde compartilhava essas histórias e recebia comentários de outros pais e mães artistas, o que a fez perceber a importância de contar essas experiências.
  • O terceiro capítulo, “Ideias Tangíveis”, fala sobre o processo criativo em si, a sensação de conforto e alegria de ver um conceito se materializar em livro impresso.
  • O quarto e último capítulo, “Quatro Mesas”, tem esse nome porque seu ateliê é organizado literalmente em quatro mesas: duas grandes e duas pequenas, cada uma com projetos em diferentes estágios, dos mais urgentes aos de longo prazo. De vez em quando, suas crianças aparecem para desenhar em alguma delas. Para Suzy, o processo criativo é indissociável da vida da artista, e é essa ideia que costura todo o livro.

As crianças e o contato com o público

Na manhã da coletiva, Suzy participou de um workshop com crianças inspirado em Verão. Perguntada sobre o quanto esses encontros influenciam seu repertório, respondeu que, por mais que organize e aprofunde a teoria, sem o contato direto com o público tudo isso significaria bem menos. Contou ter ficado feliz ao ver as crianças atentas, levando a sério a atividade artística, e que isso lhe dá energia tanto para a reflexão teórica quanto para a produção.

Imagem: Companhia das Letras

Book Art, um “Ice Cream Van” e a origem de um vilão

Questionada sobre um fato pouco conhecido de sua trajetória, Suzy relembrou sua época de mestrado em Book Arts na Camberwell College of Arts, em Londres, um curso tão recente e pouco definido na época que, segundo ela, “nem a professora sabia exatamente o que era”. A turma reunia 12 alunos de áreas completamente diferentes (ela era a única ilustradora de livros infantis; havia gente que trabalhava com poesia performática, e até alguém que serrou um livro ao meio com uma motosserra como proposta artística) e o fato de ninguém ter um conceito fechado sobre o que era “livro” abriu espaço para muita experimentação.

Foi durante um curso paralelo, no qual foi desafiada a criar algo sobre o tema “morte”, que nasceu um de seus livros mais curiosos — ainda não traduzido no Brasil. Suzy havia acabado de voltar de uma viagem à Irlanda, onde quase se envolveu em um acidente ao encontrar uma estrada cheia de coelhos, e decidiu que eles seriam os protagonistas da história. Para o papel de vilão, ela pensou no vendedor de sorvetes de um van que passava perto de sua casa: como ele sempre virava o rosto quando ela o cumprimentava, chegou a suspeitar que fosse por preconceito, e o transformou no personagem atacado por um bando de coelhos vingativos. O mesmo personagem reaparece, anos depois, em outro livro, Ask Me, dessa vez em paz com os coelhos.

O projeto Vacance e um dicionário de opostos em porcelana

Para fechar, Suzy falou sobre sua participação no Vacance Project, um coletivo de 18 artistas em que cada integrante produz ao menos um livro por ano em torno de temáticas ligadas ao folclore coreano. Um dos livros que fez para o projeto reúne 14 histórias folclóricas associadas às regiões montanhosas da Coreia, em um formato sanfonado, em que cada dobra revela uma nova montanha e sua respectiva história. Ela chegou a mostrar alguns desses livros experimentais aos presentes.

Ela também contou sobre um encontro do coletivo em um museu nacional: cada artista escolheu uma peça histórica do acervo para desenvolver uma narrativa a partir dela. Suzy se interessou por uma peça de porcelana branca e uniu esse achado a uma ideia que já rondava sua cabeça havia tempo, um livro de palavras opostas para crianças. O resultado foi um “dicionário de opostos”, lançado na França, em que cada peça de porcelana ganha características quase humanas — pesado e leve, tranquilo e preso, sonho e realidade — a partir da observação de suas formas.

Imagem: Rue du Monde