Em 2026, a 27ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo recebeu a escritora sul-coreana Lee Hong, autora de “A Dama de Gangnam”, romance que chega agora às livrarias brasileiras. Conhecida por explorar temas como relações amorosas, dramas familiares, questões de classe social e a divisão das Coreias, Lee Hong conversou com a FunFact sobre o processo de criação do livro, abordando a Gangnam anterior ao boom do K-pop e do K-content, e também sua infância, que moldou sua escrita. Confira a entrevista completa:

FunFact: Sua carreira literária passa por temas como relações amorosas, família, classe social e a divisão da Coreia. Como você enxerga as mudanças na sua escrita ao longo dos anos?
Lee Hong: No início, eu escrevia principalmente para entender a mim mesma, nascida mulher neste mundo, explorando a dinâmica entre as mulheres e a sociedade. Nos últimos anos, tenho me interessado mais pelo mundo que se cria entre mim e o outro, fora do sistema social, e é a partir disso que tenho escrito meus romances.
FunFact: A literatura sul-coreana vem ganhando cada vez mais reconhecimento no Brasil. Na sua opinião, quais características dos livros de autores coreanos ajudam a explicar esse interesse crescente dos leitores brasileiros?
Lee Hong: A literatura coreana tem retratado histórias contemporâneas por meio de diversos prismas. A forma de contar essas histórias é muito coreana e original, mas as questões que elas levantam têm uma universalidade com a qual qualquer pessoa no mundo pode se identificar. Acredito que seja justamente essa universalidade original que tem conquistado o carinho e o apoio do público brasileiro.
FunFact: Quais são suas expectativas em relação à recepção de A Dama de Gangnam no Brasil? Há algum aspecto do livro que você gostaria especialmente que os leitores brasileiros percebessem?
Lee Hong: Escrevi A Dama de Gangnam em uma época em que eu não conseguia entender nem a mim mesma, nem o mundo ao qual eu pertencia. Eu desejava algo intensamente e me dedicava de corpo e alma para conquistá-lo, vivendo com muito empenho, mas, ironicamente, não sabia de onde vinha aquele desejo. Esse desejo dentro de mim era realmente meu? Ou seria o desejo da minha família, que queria que eu tivesse sucesso? Ou um desejo moldado pelas convenções sociais? E qual seria a origem dessas convenções? Foi seguindo essas perguntas que escrevi o romance, e só depois disso consegui me libertar do meu próprio desejo. Ficaria feliz se algum leitor deste livro se deparasse com perguntas parecidas com as que eu tinha naquela época.
FunFact: No seu livro, Gangnam aparece como mais do que um bairro nobre de Seul: é também um símbolo de status, competição, desejo e exclusão. Internacionalmente, o bairro também se tornou conhecido por meio de músicas, dramas, filmes e outras obras ambientadas ali. O que despertou seu interesse em ambientar a história em Gangnam, e como esse cenário contribui para os conflitos e o desenvolvimento das personagens? O que Gangnam representa para você como cenário literário?
Lee Hong: Escrevi esse romance entre 2008 e 2010, um ano depois da minha estreia oficial como romancista. Naquela época, Gangnam ainda não era um bairro tão conhecido pelos estrangeiros quanto é hoje: foi antes do sucesso mundial de “Gangnam Style”, do Psy, e bem antes de o conteúdo coreano, o K-content, ser tão amado como é atualmente. Naquele período, o chamado “sonho de Gangnam” era generalizado entre os coreanos: morar em Gangnam era como um selo garantido de sucesso, uma espécie de carteira de identidade do êxito. Por isso, desde a concepção do romance, pensei que o bairro de Gangnam e a personagem Oh Miná deveriam compartilhar, desde a origem, o mesmo DNA, como um decalque um do outro. Isso porque o próprio nascimento de ambos já trazia embutido o propósito de um “mito de sucesso rápido”. Esse era um anseio coletivo da sociedade coreana, e eu também era uma coreana que corria a toda velocidade atrás desse mesmo objetivo.Mas, em determinado momento, deixei de entender aquilo. Eu desejava o sucesso intensamente, mas, ironicamente, eu mesma não sabia por que tinha passado a desejar aquilo. E percebi que esse não era um problema só meu. Ao começar a escrever este romance, me dei conta de que, em nome da meta do “mito do sucesso”, o clima social excluía os desejos e sentimentos próprios de cada indivíduo, e passei a apagar deliberadamente as emoções dos personagens no livro. Assim, Gangnam e Oh Miná se tornaram, na narrativa, representações de um desejo unificado, moldado pelas convenções sociais dos coreanos daquela época.
FunFact: A literatura contemporânea também tem se destacado por abordar temas e contextos que refletem a realidade dos próprios leitores, ao mesmo tempo em que questiona aspectos do imaginário coletivo e do cotidiano da sociedade. Quais questões da sociedade sul-coreana contemporânea você considera centrais em A Dama de Gangnam?
Lee Hong: O ser humano é um ser de desejo, e todo mundo quer viver uma vida bem-sucedida. Por isso, acredito que desejar algo em busca dessa vida bem-sucedida seja, em si, um fenômeno natural. Mas a história muda completamente quando o desejo de todas as pessoas de uma sociedade é exatamente o mesmo. Acredito que A Dama de Gangnam se debruça justamente sobre esse ponto. A educação particular excessiva, a ditadura da aparência, os relacionamentos e casamentos tratados como negócios, a guerra dos vestibulares e da busca por emprego, tudo isso retratado no romance está conectado por um único fio: o processo em busca de uma vida bem-sucedida. Mas por que essas condições para uma vida bem-sucedida acabaram sendo as mesmas para todo mundo? É exatamente essa pergunta que o romance faz.
FunFact: A protagonista Oh Miná é retratada como uma mulher marcada pela beleza, pelo prestígio e pela ambição, mas também pela perda, pela violência e pela contradição. Como foi criar uma protagonista que desafia as distinções entre vítima, vilã e heroína?
Lee Hong: Esse processo foi bastante desafiador. No início, eu não tinha a intenção de escrever um romance tão implacável. Mas Oh Miná é uma personagem que vive cheia de contradições, e o próprio sistema do ambiente em que ela vive também é repleto de contradições. O ponto de encontro entre essas contradições não pertencia ao mundo binário do bem e do mal: a maioria das pessoas, aquelas que costumamos chamar de “pessoas comuns”, existe justamente nessa ampla zona cinzenta entre essas fronteiras. Quando coloquei a personagem Oh Miná nessa zona cinzenta, ela, influenciada pelo sistema do mundo em que vivia, foi correndo cada vez mais na direção mais sombria. Eu, como autora, não conseguia controlar facilmente a personagem, foi uma situação bem assustadora para uma escritora estreante.
FunFact: A estrutura narrativa do livro é uma de suas características mais marcantes, moldando o processo pelo qual os leitores descobrem a trajetória da protagonista e tornando a imersão na história ainda mais profunda e mais complexa. Como você desenvolveu essa estratégia narrativa, e o que esperava alcançar com ela?
Lee Hong: Desde o início, eu já tinha em mente uma estrutura em ordem inversa. Na época em que escrevi este romance, eu era reconhecida pelos outros como alguém que vivia uma vida bem-sucedida, mas, ironicamente, eu mesma não era feliz e vivia sempre exausta, com falta de sono. Olhando ao meu redor, percebi que não era só eu: minhas amigas e parentes também viviam da mesma forma. E o motivo de todos viverem assim era sempre o mesmo: o “sucesso”. Por que será que todos vivíamos numa sociedade do cansaço, movidos por um único desejo? Eu simplesmente não conseguia entender o sistema do mundo em que vivia, e entendia ainda menos a mim mesma, que vivia cegamente só para pertencer a esse mundo que eu nem compreendia direito.Por isso, comecei a fazer um tipo de perfil de mim mesma. Voltei no tempo em busca do momento em que aquele “padrão de sucesso”, tão profundamente enraizado em mim, havia se formado. As lembranças da minha infância, época em que a internacionalização e a industrialização se aceleravam na Coreia, voltaram tão nítidas quanto se fossem de ontem. Foi então que percebi que todas as decisões que eu havia tomado na vida não eram, na verdade, o que eu realmente queria, mas sim algo moldado por convenções sociais como “mulher tem que ser assim” e “coreano tem que viver assim”. E também percebi quantas contradições existiam na nossa sociedade, que tanto almejava esse “mito feminino”. Foi por isso que decidi criar essa “estrutura em ordem inversa”, que retorna ao momento exato dessa minha própria tomada de consciência.
FunFact: Após a publicação de A Dama de Gangnam e sua experiência na Bienal do Livro, quais são seus próximos projetos? Você tem interesse em desenvolver novas histórias ou parcerias que possam fortalecer o intercâmbio entre a literatura sul-coreana e a brasileira?
Lee Hong: Nos últimos anos, tive a experiência de participar de projetos de intercâmbio internacional por meio da literatura, o que certamente ampliou tanto minha visão como indivíduo que percebe o mundo quanto minha visão de mundo como escritora. Se surgir a oportunidade, gostaria muito de desenvolver, no futuro, projetos de intercâmbio literário entre o Brasil e a Coreia. Brasil e Coreia são países geograficamente muito distantes e têm muitas diferenças, mas também compartilham alguns pontos em comum. Acho que seria interessante criar, por meio da literatura, uma oportunidade de diálogo sobre como essas questões comuns podem afetar os indivíduos que vivem no Brasil e na Coreia. Só que esse é um projeto que depende de apoio, então ele só se tornaria possível se editoras e instituições brasileiras interessadas no tema demonstrassem esse interesse primeiro.

FunFact: Nossa revista se chama FunFact. Você poderia compartilhar uma curiosidade sobre seu processo criativo como autora ou sobre a construção da narrativa de A Dama de Gangnam?
Lee Hong: Depois que o romance foi publicado, leitores, inclusive família e amigos, passaram a me associar à personagem Oh Miná. Como sempre fui de rir bastante, me perguntavam como eu conseguia ter um rosto tão risonho e, ao mesmo tempo, escrever uma história tão sombria, implacável e cruel. Foi um pouco constrangedor ver as pessoas me identificando com a personagem, mas isso acabou me dando a oportunidade de refletir sobre a origem desse estilo de escrita que desenvolvi. Desde os nove anos, em vez de escrever no diário o que tinha acontecido naquele dia, eu já escrevia histórias inventadas. Eu queria, de forma vaga, me tornar romancista, mas nunca tinha parado para pensar no porquê disso. Revirando memórias antigas, encontrei uma pista: tudo começou com a personagem Daisy, de O Grande Gatsby, livro que li aos nove anos. Naquela época, a Coreia era uma sociedade centrada nos homens, influenciada pelo pensamento confucionista, e as mulheres tinham principalmente o papel de cuidar dos homens. Era uma época em que havia muitas mulheres injustiçadas, que se sacrificavam e se dedicavam aos homens, mas ainda assim não recebiam amor nem reconhecimento dos maridos e irmãos homens. Daisy, porém, era como uma metáfora da mulher amada mesmo sem precisar mergulhar as mãos em água fria para lavar roupa, sem precisar se levantar de madrugada, ainda sonolenta, para cozinhar uma sopa para o marido que voltava bêbado para casa, sem precisar se sacrificar, como faziam minha avó, minha mãe e minhas tias!Com aquela mentalidade infantil, eu queria ser uma mulher como Daisy, então comecei a imitá-la. Cortava as franjas de um espanador de limpeza e as colava na barra da saia para fazer um vestido com franjas; aproveitava quando meus pais saíam de casa para cortar o cabelo curto, como o de Daisy, com uma tesoura de cozinha; me maquiava com a maquiagem da minha mãe; dançava com um namorado imaginário (o Gatsby); e fingia fumar segurando uma caneta Monami entre os dedos. Até que, um dia, minha mãe voltou de uma saída e flagrou essa cena. Ela ficou extremamente chocada e com muita raiva. Me mandou refletir sobre o meu erro e prometer que nunca mais faria aquele tipo de comportamento. Mas, estranhamente, eu não conseguia desistir de ser a Daisy, era algo que eu sentia de forma autêntica, que me dava prazer e felicidade. Eu achava que, se continuasse imitando, um dia poderia viver como ela. Como eu não me arrependi, minha mãe acabou me batendo com uma vara, acho que foram mais de cem golpes. Mesmo apanhando, eu não prometi que nunca mais faria aquilo, e no fim acabei sendo expulsa de casa, com as roupas completamente arrancadas do corpo. Era pleno inverno, com neve caindo. No corpo nu, a única coisa que restava era um fiapo dourado do espanador, brilhando ao luar. Tremendo de frio no meio da madrugada, eu não estava ali me arrependendo e prometendo nunca mais fazer aquilo. Eu só entendi uma coisa: que tanto uma mulher quanto uma criança podem querer ser ou fazer algo, mas que, se expressarem esse desejo, podem receber um castigo tão cruel quanto aquele. A partir daí, passei a nutrir uma resistência em relação às convenções do mundo em que eu vivia, e comecei a colocar esse sentimento de resistência no papel. Eram, principalmente, histórias com “mulheres más”, do lado oposto da convenção social de que “mulher tem que ser assim”. Com o acúmulo desse tempo, acabei estreando como romancista, e acho que foi assim que passei a escrever romances com personagens femininas que rompem a ideologia sobre a mulher da época, como é o caso de A Dama de Gangnam.

Para fechar a conversa, pedimos a Lee Hong que deixasse uma mensagem aos leitores brasileiros:
Lee Hong: Conheci o Brasil pela primeira vez, ainda na infância, por meio de um romance. Mais do que conhecer o país de forma concreta ao ler Meu Pé de Laranja Lima, eu imaginava o Brasil constantemente através dos sentimentos daquele menino brasileiro. Por isso, o fato de meu romance ter sido publicado justamente nesse Brasil que eu tanto imaginei através da literatura é uma experiência ainda mais maravilhosa e preciosa para mim.
Entrevista concedida à FunFact (@funfact.ff) durante a Bienal Internacional do Livro de São Paulo 2026.
