K-pop encontra a Música Tradicional Coreana: por dentro da exposição gratuita do CCCB em São Paulo

K-pop encontra a Música Tradicional Coreana: por dentro da exposição gratuita do CCCB em São Paulo

Em um dos anos mais movimentados para o K-pop no Brasil, com o Stray Kids fechando o Palco Mundo do Rock in Rio, o BTS se preparando para três noites no MorumBIS e Guerreiras do K-Pop levando dois prêmios Oscar para casa, o Centro Cultural Coreano no Brasil (CCCB) decidiu fazer o caminho inverso do que estamos acostumados a ver. Ao invés de destacar apenas as atividades atuais do gênero, a exposição “K-pop encontra a Música Tradicional Coreana” convida o público a descobrir as raízes musicais que sustentam esse fenômeno global.

A mostra, gratuita e com classificação livre, é uma realização do Centro Nacional de Gugak, instituição coreana dedicada à preservação da música tradicional do país, em parceria com o CCCB, dentro do projeto Touring K-Arts, com patrocínio do Ministério da Cultura, Esportes e Turismo da Coreia e da KOFICE (Fundação Coreana para o Intercâmbio Cultural Internacional). Ela fica em cartaz até 8 de novembro de 2026, na sede do CCCB na Avenida Paulista, 460, com entrada gratuita.

Fomos conferir de perto e trazemos aqui um raio-x da experiência, núcleo por núcleo.

Logo na entrada

Ainda no saguão, um painel apresenta a proposta central da mostra: usar a “batida intensa e a atmosfera viciante” do K-pop como porta de entrada para uma tradição musical que atravessa séculos.

Núcleo 1 – Gut: pelo bem-estar de hoje e a paz de amanhã

O primeiro núcleo é dedicado ao gut, ritual xamânico coreano em que a mudang (xamã) atua como ponte entre humanos e espíritos, por meio de música, dança e celebração comunitária. A curadoria faz a ponte direta com a cultura pop atual citando a cena de abertura da animação Guerreiras do K-pop, em que a primeira caçadora surge em uma sequência que remete à estética de um maeul-gut (ritual de aldeia): unir a comunidade e desejar proteção e harmonia coletiva.

O destaque físico deste núcleo é o figurino ritual em vermelho e amarelo, acompanhado de um gongo de mão, leque e sashes de tecido colorido. Ao redor, telas exibem registros de apresentações tradicionais.

Imagem: FunFact

Núcleo 2 – Gat: colocando o pungnyu no mundo

O segundo núcleo parte do gat para explicar o conceito de pungnyu: uma cultura de encontro entre artistas de diferentes áreas para trocas artísticas refinadas, independentemente de classe social, algo que a curadoria compara aos “salões” ocidentais, sugerindo que essa mesma essência colaborativa segue viva nas parcerias entre artistas de K-pop hoje.

Aqui ficam expostos uma vestimenta tradicional em tom acinzentado e um dos instrumentos de corda da mostra, entre o gayageum (cítara de treze cordas) e o haegeum (instrumento de duas cordas). As telas deste trecho trazem registros de músicos e performers em ação, incluindo um artista trajando gat durante uma apresentação.

Imagem: FunFact

Núcleo 3 – Kkun: para você que sabe apreciar a vida

Fechando o percurso, o núcleo dedicado ao kkun, sufixo usado no coreano para descrever alguém extremamente habilidoso em determinada área, parte da faixa “Sori-Kkun (Thunderous)”, do grupo Stray Kids, para apresentar figuras como o sori-kkun (cantor) e o yeonhui-kkun (artista performático). O texto expositivo lembra que essas figuras se apresentavam no pan, mercados e praças populares onde reuniam multidões, verdadeiras superestrelas de sua época, com fãs tão devotados quanto os de qualquer ídolo atual.

É o núcleo mais cenográfico da mostra: instrumentos de samulnori (o quarteto percussivo tradicional), o buk (tambor de barril), o janggu, o jing (gongo grande) e o kkwaenggwari ao lado de máscaras usadas em performances tradicionais (incluindo uma de leão) e de um manequim trajando o figurino tradicional, além do sangmo, o chapéu giratório de fitas usado nas apresentações de percussão folclórica. As telas espalhadas por esse trecho exibem trechos de apresentações do BTS e do Stray Kids que utilizam esses elementos tradicionais, mostrando a ligação que grupos atuais têm com as tradições de sua cultura e a continuação de suas tradições.

Imagem: FunFact

A árvore dos desejos

Antes da saída, os visitantes encontram a Árvore Dangsan, instalação repleta de cartões coloridos, identificados pelas cores e símbolos de gut, gat e kkun, em que é possível escrever um desejo e pendurá-lo, em referência às árvores sagradas de aldeia usadas tradicionalmente em pedidos de proteção e boa sorte.

Imagem: FunFact