Dos palácios do antigo Sião às ruas agitadas da ditadura militar, há uma leva de dramas tailandeses que está usando romances para revisitar a própria história do país.
Esse movimento não é aleatório. Ao situar romances entre homens em períodos marcados por hierarquias rígidas, censura e moral religiosa conservadora, essas narrativas criam um contraste potente: quanto mais o contexto tenta controlar corpos e afetos, mais o BL se torna uma espécie de “experiência de ficção” sobre como poderia ter sido viver e amar naquele tempo. Não é só mais um trabalho de um shipp: é uma forma de explorar e apresentar uma memória histórica com do ângulo de um relacionamento que, oficialmente, nem deveria existir.

O romance nas brechas da repressão
Se boa parte dos dramas históricos passam por reinos, mansões e famílias em eras distantes, Shine joga o BL no olho de um passado muito mais próximo e ainda sensível: o tempo da ditadura na Tailândia. Ambientada entre 1969 e 1971, o drama acompanha personagens intelectuais, do exército, da contracultura, militantes, jornalistas e estudantes em meio à censura, à vigilância e à escalada de protestos que marcam o fim desse período no país.
Ao escolher esse recorte, Shine experimenta algo importante: transforma o romance em eixo de uma narrativa abertamente política. Não vemos somente uma ambientação de época genérica, vivemos uma trama que discute liberdades civis, controle do Estado, violência e o custo de amar (e existir) em um contexto em que qualquer “desvio” pode ser punido. Nesse sentido, o BL deixa de ser apenas um gênero de nicho e passa a funcionar como comentário histórico sobre autoritarismo.

Política, memória e entretenimento
Lançada em 2025 e produzida pela Be On Cloud, o drama conta com oito episódios, disponível oficialmente na plataforma de streaming WeTV. A história acompanha quatro principais personagens importantes que se atravessam em meio a música, jornalismo, investigação, romance, política, desejos e perdas: Tanwa, Trin, Krailert e Naran.
Tanwa (Mile Phakphum) é um músico hippie, ligado ao universo da contracultura, à música como forma de resistência e à busca por um ideal de liberdade.
Trin (Apo Nattawin) é economista, homem de formação intelectual sólida, que transita entre teoria econômica, ética e dilemas morais sobre como agir diante de um regime autoritário.
Krailert (Son Yuke) é coronel, peça chave na engrenagem militar, responsável por colocar em prática decisões que impactam diretamente os corpos e as vidas dos outros.
Naran (Euro Yotsawat) é repórter, alguém que observa, registra e tenta transformar fatos em narrativa – ou em denúncia – em um cenário de censura e risco.
O romance entre Tanwa e Trin é atravessado por debates sobre liberdade individual, expressão política, lealdades e limites éticos. O romance não é um “extra” que acontece à margem da história: ele é o espaço onde todas essas tensões se tornam íntimas, concretas, quase insuportáveis.

Ao adaptar essa cena da Tailândia do final dos anos 60 pela perspectiva de um casal entre homens, o drama sugere que as lutas por democracia, liberdade de expressão e direitos civis também sempre foram lutas de pessoas LGBTQIAPN+, mesmo quando a história oficial não destacou essas pessoas.
O envolvimento dos atores e a construção do mundo de Shine
Parte da força de Shine está no fato de que seu elenco principal já carrega uma bagagem importante dentro do BL tailandês e esteve diretamente envolvido na produção do drama como um todo. Mile Phakphum e Apo Nattawin se tornaram nomes incontornáveis do gênero depois de protagonizarem KinnPorsche em 2022, uma dos BL mais populares dos últimos anos. Juntos, também estrelaram o filme Man Suang, e Apo ainda protagoniza Tee Yai: Nascido para o Mal, ambos disponíveis na Netflix. Essa trajetória faz com que a dupla traga para Shine não só seu trabalho construído em anos, mas traz também o comprometimento dos dois com a construção do drama, abdicando dos pagamentos como atores para investir na produção e destacar o enredo o máximo possível.
Ao lado deles, Son Yuke e Euro Yotsawat completam um quarteto que precisa sustentar, em cena, tanto a densidade política quanto a carga emocional de personagens que vivem sob constante vigilância. Son, no papel de um coronel, encarna a ambiguidade de quem ocupa um lugar de poder em um regime violento; Euro, como repórter, é a ponte entre o mundo dos bastidores e a esfera pública, um personagem que simboliza a disputa pela narrativa dos fatos. Ambos casados formalmente com suas esposas, vivendo publicamente em relacionamentos tradicionais à época, se permitem experimentar sentimentos verdadeiros em segredo.

Tudo isso é amplificado por uma produção que se comprometeu a reconstruir a Tailândia daquele período com cuidado: figurinos que traduzem o choque entre tradição e contracultura, locações que evocam tanto a rigidez dos gabinetes quanto a efervescência das ruas, e uma trilha que dialoga com o espírito dos anos 60 e 70, que foi uma época marcada por movimentos estudantis e pela circulação de ideias sobre liberdade, arte e revolução.
O resultado é um BL em que cada detalhe visual e sonoro reforça a sensação de que esses personagens realmente habitam um passado específico. Quando Tanwa e Trin se olham, quando Mile e Apo se entregam à atuação, discutem ou se aproximam, é impossível esquecer que esse gesto está sendo feito sob o peso de uma ditadura.

Shine, com sua mistura de romance, política e memória, é hoje o exemplo mais visível desse movimento: usar o entretenimento como ferramenta cultural, social e política.
Fancon em São Paulo: o elenco já está a caminho do Brasil

No próximo sábado, dia 7, essa mistura de política, romance e memória histórica atravessa o planeta. Os quatro atores principais de Shine – Mile, Apo, Son e Euro – desembarcam no Brasil para uma fancon da turnê mundial da série. Os atores já estão vindo da Tailândia para conhecer o país e realizarem a aguardada apresentação.
Confira as informações:
Shine São Paulo Fancon
Data: 07 de março de 2026
Horário: 19h30 (abertura dos portões às 18h30)
Local: Terra SP – Av. Salim Antônio Curiati, 160 – Campo Grande, São Paulo
Ingressos: vendas via Shotgun (ainda há poucos ingressos disponíveis)
De acordo com a Highway Star, produtora do evento, o Brasil é o primeiro país fora da Ásia a receber a turnê mundial de Shine. O formato da fancon é “uma mistura de teatro e show, com cenas inéditas da série interpretadas ao vivo pelos atores e apresentações musicais”. Inspirado pela temática do drama, a expectativa é o clima dos anos 60 e 70 para o palco, recriando ao vivo a atmosfera política e estética do BL.

Mais do que um show, a fancon de Shine em São Paulo representa um encontro entre duas histórias políticas. De um lado, um país que ainda elabora traumas de sua própria ditadura; do outro, um drama que revisita a repressão tailandesa dos anos 70 a partir do olhar de um casal BL. Quando Mile, Apo, Son e Euro subirem ao palco, o que se encontra ali não é só fandom: é também uma comunidade global discutindo memória, representatividade e direito de amar.
A Fun estará presente no evento! Nossa equipe está super ansiosa para esse momento! Se nos ver por lá, pare para dar um oi e ganhar um super brinde! O que você mais espera ver no show? Será que Mile e Apo vão repetir a dose do encontro que aconteceu na Tailândia? Nos siga no Instagram e vamos conversar muito mais sobre esse assunto por lá!
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