Se você curte signos e tarot, já pensou em consultar ensinamentos ancestrais chineses para tomar decisões ou refletir sobre o funcionamento do universo?
Imagine um livro que serve tanto para fazer perguntas como “eu deveria aceitar aquele emprego?” ou “a pessoa que estou a fim gosta de mim?” quanto para compreender as dinâmicas que regem o universo.
Esse é o I Ching: um oráculo milenar considerado um texto fundamental para a civilização chinesa.

Conhecido como “Livro das Mutações”, o I Ching surgiu há cerca de 3 mil anos e influenciou correntes filosóficas importantes, como o daoísmo e o confucionismo, além de ser um dos sistemas divinatórios mais antigos da humanidade, utilizado até os dias de hoje.
A obra é atribuída a quatro sábios de épocas diferentes: Imperador Fu Xi (figura mitológica), Rei Wen, Duque de Chou e Confúcio.
Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo

No I Ching, não há o que mude, há apenas o mudar. Tudo é mutável, menos a própria mutação, que é constante, e isso seria a essência do mundo.
No filme Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo (2022), a transformação de Joy (Stephanie Hsu) em Jobu Tupaki lembra uma ideia central do I Ching que você já deve ter ouvido falar: a dinâmica do Yin Yang.

Jobu Tupaki, ao experimentar possibilidades infinitas e ter acesso a todo o conhecimento do multiverso, alcança um estado de liberdade quase ilimitado — uma expansão que poderia ser associada ao yang, princípio ligado à atividade, à manifestação.
Mas esse excesso produz o efeito contrário: diante de infinitas possibilidades, nada parece importar. A abundância se transforma em vazio e falta de propósito. No I Ching, quando algo é levado ao extremo, acaba se convertendo em outra coisa. Essa passagem de um extremo ao outro não é uma exceção, mas uma das leis fundamentais da transformação.
O I Ching busca entender essas leis da transformação: a natureza das mudanças.
Você pediria conselhos a um livro com quase 3 mil anos?
Para usar o I Ching como oráculo, primeiro faça uma pergunta. Cuidado nessa parte: se a pergunta for confusa, a resposta será confusa.
Isso porque formular qual é a sua verdadeira pergunta já faz parte da reflexão. Afinal, se você não sabe exatamente o que quer compreender, talvez nem um livro de 3 mil anos consiga te ajudar.

Tradicionalmente, a consulta é feita lançando moedas ou varetas, que geram combinações. As moedas são mais fáceis: você lança três moedas seis vezes. Cada lançamento gera uma linha yin (– –) ou uma linha yang (—).

A combinação das seis linhas forma um hexagrama. Cada hexagrama corresponde a um conjunto de ensinamentos e interpretações acumulados ao longo de milhares de anos.
Existem 64 hexagramas possíveis, cada um representando uma situação, uma energia ou um momento específico da experiência humana.
Não espere do I Ching respostas do tipo “sim” ou “não”. Em vez de prever um futuro fixo, o I Ching ajuda a compreender as energias e tendências presentes em cada momento, oferecendo reflexões para orientar escolhas e decisões.
Você encontrou seu hexagrama. E agora?

Depois de obter o hexagrama da sua pergunta, abra na página certa e leia o texto correspondente. Cada hexagrama terá:
- um nome
- um Julgamento
- uma Imagem (em formato de texto)
- comentários tradicionais
Em vez de uma resposta direta, você encontra a descrição de cenários ou situações, metáforas e reflexões, que ajudam a interpretar a questão apresentada.
Algumas consultas geram linhas mutáveis, que indicam transformação e levam a um segundo hexagrama. Essa é uma parte fascinante do sistema, porque a resposta não é apenas uma situação, mas uma situação em processo de mudança.
Oito Trigramas Sessenta e Quatro Palmas
Mesmo que você nunca tenha aberto o Livro das Mutações, há boas chances de já ter encontrado alguns de seus símbolos por aí.
Para os fãs de anime, pode soar familiar. Em Naruto, diversas técnicas do clã Hyūga fazem referência aos “Oito Trigramas”, incluindo o famoso golpe “Oito Trigramas Sessenta e Quatro Palmas”, usado por Neji e Hinata. O nome não é coincidência: os trigramas e os 64 hexagramas são elementos centrais do sistema simbólico do I Ching.

Para os fãs de K-dramas, a bandeira da Coreia do Sul provavelmente é uma imagem familiar. Além do círculo vermelho e azul no centro, que simboliza o equilíbrio entre yin e yang, os quatro símbolos pretos nos cantos são trigramas derivados do I Ching. Formados por diferentes combinações de linhas yin e yang, eles representam forças fundamentais da natureza: céu, terra, fogo e água.

É curioso pensar que um sistema criado há quase 3 mil anos na China influenciou cientistas, matemáticos e artistas, e continua deixando sua marca na cultura contemporânea de diversos países.
As raízes de uma civilização
Mais do que um oráculo, o I Ching ocupa um lugar central na cultura chinesa. Ao longo dos séculos, suas ideias influenciaram áreas tão diversas quanto a medicina, a filosofia, a arquitetura, as artes marciais e até estratégias militares.

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