Um desafio a todas e todos nós, e um convite para pensar/viver/sentir as coisas do mundo fora do lugar.
Novo livro do autor – A cidade e suas muralhas incertas – chega neste mês, prometendo mais revelações do estilo murakamiano.

Dias atrás, acho que há mais ou menos uma semana, tive notícias de que a cena literária brasileira receberá mais uma tradução da obra literária do escritor japonês Haruki Murakami. À luz dessa ótima notícia, eu entrei em êxtase e estou mentalizando a chegada do livro às minhas mãos desde então.

Acredito, sinceramente, que a força da literatura japonesa, no geral, e a especificidade da literatura murakamiana, em particular, ainda estão por serem valorizadas no contexto brasileiro. Nada contra os recentes investimentos na distribuição da literatura em mangá, porém, existe uma ampla gama de vozes da literatura japonesa que precisam chegar a cada uma, cada um de nós. Muitos já chegaram e outros estão vindo por aí. Todavia, eu quero mais!
Sobre Murakami, ao longo de seus 77 anos de vida, ele vem se destacando pelas narrativas que prendem o leitor. Usei o verbo “prender” e não o verbo “cativar” de propósito, pois, penso eu, sua estética e as formas de seus textos têm esse objetivo. Eu fui um leitor mais fanático, desses que não deixava passar nenhuma obra, mas acho que me inclinei para autoras e autores mais dedicados ao ensaio. Todavia, o simples anúncio da publicação de A cidade e suas muralhas incertas me fez voltar no tempo.
Eu tive o meu primeiro contato com a obra murakamiana no contexto da faculdade. Tinha acabado de ingressar num laboratório dedicado aos estudos da chamada História Oral, e uma amiga bolsista chegou lá com um volume da trilogia 1Q84. Me interessei pela capa, pois me incomodava profundamente que nela constavam desenhos parecidos com os raios de sol desenhados na bandeira japonesa do séc. 19, quando o país adotava uma postura agressiva e imperialista. Em parte, o incômodo gerou a curiosidade, pois eu nunca tinha ouvido falar de Murakami e me espantou que algo que pudesse refletir esses ideais pudesse estar sendo publicado.
Quando passei a ler, começando pelo primeiro volume, notei que, na verdade, foi só uma falta de atenção do projetista, pois já naquele livro tudo cheirava a uma perspectiva crítica ao estilo de ser japonês. Assim foi, também, com os demais livros. Como eu gosto de dizer: eu fiz uma viagem em Murakami e com ele também.
Uma viagem dividida em muitas temporadas, várias estações, atravessando sendas, desertos, riachos, campinas, planícies, montanhas e até – pasmem – as fronteiras do real, pois, sim, passei a enxergar mais de uma lua no céu, passei a tocar no espelho e entrar nele. Vale a pena passear com ele. Para isso, se deve ler: Sono, Ouça a canção do vento, O incolor Tsukuru Tazaki e seus anos de peregrinação, Após o anoitecer, a trilogia 1Q84, a coletânea Homens sem mulheres, Primeira pessoa do singular e por aí afora. Eu gosto muito desses títulos, por isso os invoco aqui.

A despeito de eu não ter muitas mais notícias desse novo volume, penso que o estilo murakamiano nos permite prever algumas coisas, sendo a principal que suas histórias dialogam muito com o mundo contemporâneo e com o que os especialistas têm chamado de limite. Estamos vivendo um tempo em que os limites parecem estar na nossa frente, e precisamos enfrentar as consequências e as delícias de ultrapassá-los. Mas, se me permitem aqui uma postura fã, Murakami é, antes de tudo, uma viagem a se fazer nesses tempos.
E se você tem alguma dúvida, reproduzo aqui o breve comentário acerca do enredo do novo livro, disponibilizado pela imprensa especializada: a história se passa num verão, que, de tempos em tempos, é a estação na qual um jovem se encontra com sua namorada. Eles se conheceram num concurso de redação de estudantes. Os momentos que ambos vivem, juntos, revelam o quanto os dois compartilham de enigmas. Num belo dia, quando ela desaparece subitamente, ele decide procurar por ela, numa espécie de mundo misterioso – uma cidade misteriosa.

Murakami mescla algo de outros livros, essa verve enigmática, que diz respeito ao seu modo de ver a vida humana: é como se nós sempre estivéssemos sumindo, virando uma sombra, dentro de nossas próprias elipses. Seja como for, o protagonista vive entre mundos, atrás de si, de sua história, da história do seu amor, e do seu amor, a namorada. Provavelmente, conhecendo o perfil murakamiano, mais de 500 páginas que te ganham pela riqueza textual.
Gostaria de concluir com uma metáfora: é como se quem lê se metesse a uma aventura, porque, quem lê – no sentido do verbo “adentrar” – qualquer de seus textos, sempre se pegará pensando o quanto a vida de uma pessoa é (sempre, invariavelmente e paradoxalmente) particular e genérica. Murakami tem esse dom de nos desencaixar e jogas peças na mesa. Ser murakamiano é sempre tentar encaixar as coisas soltas e perdidas – remontando a “solidez das coisas que se desfez no ar”.
